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Gestão de riscoCritério de Kelly: como calcular o tamanho da posição e por que usar só uma fração
Leila HaddadPersonagem editorial · Redação de Risco e Comportamento
Resposta rápida
O critério de Kelly calcula a fração do capital a arriscar em cada operação para maximizar o crescimento da conta no longo prazo. No trading, a fórmula é f = W − (1 − W) ÷ R, em que W é a taxa de acerto e R a relação entre o ganho médio e a perda média. O Kelly cheio produz quedas enormes no caminho e pressupõe que você sabe exatamente W e R, o que nunca acontece. Por isso, quem usa o método costuma arriscar só um quarto ou metade do valor calculado.
Em 1956, John L. Kelly Jr., pesquisador dos Laboratórios Bell, publicou uma fórmula para decidir quanto apostar quando se tem uma vantagem. A ideia foi levada para os cassinos e depois para os mercados pelo matemático Edward Thorp. A pergunta que ela responde é central para qualquer trader: se o meu método tem vantagem, quanto da conta devo arriscar em cada operação?
Neste guia mostramos a fórmula com um exemplo resolvido, rodamos uma simulação de 10 mil sequências de operações para ver o que acontece com a conta e explicamos por que quase ninguém usa o Kelly cheio.
O que é o critério de Kelly
O critério de Kelly encontra a fração do capital que maximiza a taxa de crescimento composta da conta. Arriscar menos que isso faz a conta crescer mais devagar. Arriscar mais também faz a conta crescer mais devagar e, a partir de certo ponto, faz encolher, mesmo com um método vencedor. Arriscar o dobro do Kelly leva, no longo prazo, a crescimento próximo de zero.
Duas condições são importantes: o método precisa ter expectativa positiva (sem vantagem, a fórmula dá zero ou um número negativo, ou seja, não opere), e os parâmetros precisam ser conhecidos.

Como calcular o critério de Kelly
A fórmula adaptada ao trading é:
- f = W − (1 − W) ÷ R
- W: taxa de acerto, em decimal (55% = 0,55).
- R: ganho médio das operações vencedoras ÷ perda média das perdedoras.
- f: fração do capital a arriscar por operação, isto é, o que você perde se o stop for atingido.
Exemplo resolvido
Suponha um histórico de operações com 50% de acerto, ganho médio de R$ 120 e perda média de R$ 100.
- R = 120 ÷ 100 = 1,2
- f = 0,50 − 0,50 ÷ 1,2 = 0,50 − 0,4167 = 0,0833
- O Kelly cheio manda arriscar 8,3% da conta por operação.
- Numa conta de R$ 10.000, isso é R$ 833 de perda se o stop for atingido.
A expectativa desse método é positiva: a cada operação, em média, ganha-se 0,5 × 1,2 − 0,5 = 0,1 vez o valor arriscado. Não é uma vantagem enorme, e mesmo assim a fórmula pede um risco que a maioria dos gestores consideraria muito alto.
Exemplo prático: 10 mil simulações
Para ver o que o Kelly faz com a conta, simulamos 10 mil sequências de 200 operações com exatamente esse método (50% de acerto e R de 1,2), comparando quatro tamanhos de risco. Os números abaixo vêm dessa simulação, não de operações reais.
- Kelly cheio (8,3%): na mediana, a conta terminou multiplicada por 3,30. Mas a queda máxima mediana no caminho foi de 63%, 88% das sequências passaram por uma queda de pelo menos metade da conta e 14,7% terminaram abaixo do valor inicial.
- Meio Kelly (4,2%): a conta terminou multiplicada por 2,24 na mediana, com queda máxima mediana de 38%. Só 10,7% das sequências chegaram a perder metade.
- Um quarto de Kelly (2,1%): multiplicada por 1,58, com queda máxima mediana de 21% e nenhuma sequência perdendo metade.
- Risco de 1%: multiplicada por 1,26, com queda máxima mediana de 10%.
A troca fica clara: o meio Kelly abre mão de parte do crescimento e corta a queda típica quase pela metade. A teoria diz o mesmo: apostar metade do Kelly entrega cerca de três quartos da taxa de crescimento com metade da volatilidade.
O que acontece quando a estimativa está errada
Agora suponha que o seu histórico mostrou 50% de acerto, mas o acerto verdadeiro do método, daqui para a frente, é de 47%. Uma diferença dessas é comum com poucas centenas de operações. Repetimos a simulação com 47%:
- Arriscando os mesmos 8,3%, a conta mediana terminou multiplicada por apenas 1,11, a queda máxima mediana foi de 76% e 46% das sequências terminaram no prejuízo.
- Arriscando um quarto de Kelly (2,1%), a mediana foi de 1,20, melhor que a do Kelly cheio, com queda máxima mediana de 26%.
Com 47% de acerto, o Kelly correto seria 0,47 − 0,53 ÷ 1,2, cerca de 2,8%. O trader que calculou 8,3% estava arriscando quase três vezes o ideal sem saber. Esse é o principal motivo para usar só uma fração.

Como usar o critério de Kelly
Use como teto, não como alvo
O valor do Kelly cheio é o máximo que faz sentido arriscar, nunca o ponto de partida. Muitos traders usam entre um quarto e metade dele, e muitos outros simplesmente limitam o risco a 1% ou 2% por operação, o que costuma ficar abaixo do Kelly de métodos reais.
Calcule com um histórico grande
Taxa de acerto e relação ganho/perda tiradas de 20 ou 30 operações são quase aleatórias. Use o maior histórico possível e prefira estimativas conservadoras: arredonde o acerto para baixo e o R para baixo.
Revise periodicamente
Mercados mudam e a vantagem de um método também. Recalcule de tempos em tempos e reduza o risco se os números piorarem.
Limitações
A fórmula supõe operações independentes, resultados fixos e parâmetros conhecidos. No mercado, as operações podem ser correlacionadas, há gaps que passam do stop e os parâmetros são estimados com erro. Também supõe que você aguenta qualquer queda emocionalmente, o que quase ninguém aguenta.
Erros comuns ao usar o critério de Kelly
- Usar o Kelly cheio porque ele é "o ótimo matemático".
- Calcular a fórmula com poucas operações ou com o resultado de um mês bom.
- Confundir a fração de Kelly (risco até o stop) com o tamanho total da posição.
- Aplicar a fórmula a um método sem expectativa positiva comprovada.
- Somar o risco de várias posições abertas ao mesmo tempo como se fossem independentes.
Para praticar, junte o histórico das suas operações na conta demo, calcule a taxa de acerto e a relação entre ganho e perda médios e aplique a fórmula. Depois, opere algumas semanas com um quarto do valor encontrado e registre as quedas da conta. Esse registro mostra, na prática, quanto risco você realmente consegue sustentar.
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Personagem editorial da redação Fox On. Os textos são escritos pela equipe com apoio de inteligência artificial; cotações e gráficos vêm de dados reais de mercado. Escreve sobre gestão de risco, tamanho de posição e a psicologia por trás das decisões de quem opera.
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